sábado, 3 de julho de 2010

FERA RADICAL...


"Não me venha falar da malícia de toda mulher... cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é..." (Dom de Iludir - Caetano Veloso)



Rio de Janeiro. Sexta-feira. Quartas-de-final da Copa do Mundo. Jogo do Brasil e... pois é, como todos sabem, a seleção saiu da África com seu técnico cantando "eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou...".


Ela leu isso em algum lugar e riu.


Ok, futebol nunca foi seu forte. Ela não é fiel torcedora de time algum. Ao lado de amigos baianos ela é "BA x VI" e, sabe-se lá porque, mesmo não sendo carioca ou gaúcha , sempre teve um certo carinho pelo Flamengo desde pequenininha (por causa do Zico, talvez?) e simpatiza com o Inter de Porto Alegre (sem motivo aparente algum). No início da Copa, ela não comprou o álbum, não colecionou figurinhas e não tinha a menor noção de quem estaria defendendo o Brasil em campo... mas começou a se divertir com os "tweets", com a completa falta de noção de pessoas que sempre estavam ao seu lado e nem sabiam o que era um "impedimento", vibrou e gritou com os gols, ficou arrepiada com alguns lances e, antes de dormir - percebam a evolução da pessoa - agora acompanha um podcast bem engraçado sobre as rodadas!!! Nesse dia, ao acordar, estava planejada a encontrar alguns amigos mas tudo foi por água abaixo quando o despertador não tocou. Acabou vendo o jogo no sofá da própria sala. E é aqui que começa essa história que, na verdade, não tem nada a ver com futebol.


Decidida a ficar em casa, resolveu tentar terminar de ler um livro sobre o qual debateria no dia seguinte. Não conseguiu. Ela acha o livro chato. Bem chato. Pode ser só uma fase... vai saber, né? Mas há outra coisa que a irrita também: o fato de ter visto o filme há anos e imaginar sempre a cara da Keira Knightley enquanto o lê (ela acha essa atriz magra demais, meio insossa para o papel e não entende sua indicação ao Oscar por esse filme). Na verdade, por mais que ela saiba que este seja um clássico, ela não consegue se interessar pela linguagem de um romance escrito por uma "menina prodígio" do século XVIII, sobre o comportamento e a moral da aristocracia inglesa do século XIX. E isso é o que a irrita. Mais do que irritação, dá sono. "É um livro muito "mulherzinha", ela pensa. E conclui que a protagonista é, simplesmente, o "alter ego" de quem a criou.


De repente, o telefone toca. Imediatamente ela larga o livro, larga tudo, muda os planos e resolve sair: vai pegar um DVD pra ver aconchegada sob seu edredon. Mas num súbito ataque "gretagarboniano", decide ficar sozinha, pega o telefone de volta, desmarca o compromisso e tira a poeira do seu violão. Toca uma coisa aqui, outra ali... então começa a lembrar do fim-de-semana passado deliciosamente surpreendente, do vento batendo no rosto, das conversas, dos novos amigos, da lua cheia, do beijo bom no portão de casa, das trocas de SMS, do reencontro capaz de curar ressacas, da hora do chá, da brincadeira adolescente, do suor, dos cheiros, dos gostos e do discurso defendido por ambos os lados no "momento do depois"... e da lua minguando... do sarau da noite seguinte, das novas conversas, dos novos amigos... das novas mensagens no celular... enfim! Ela sabe que a vida é feita de ciclos. Logo a lua se renovará... e isso a inspira. Ela, então, resolve compor.


Entre um acorde e outro, no meio de tantas lembranças, surge também a memória de um texto que ela leu mês passado, num site alheio. Um texto que fala sobre essas mulheres cheias de mistério. Essas que andam por aí a atrair os homens (e as mulheres) que por elas passam. Um texto que fala sobre um tipo de mulher que ela não é e nem quer ser. E, aos poucos, ela abandona um pouco seu violão e volta ao computador, apenas para confirmar o inevitável: a autora (que não a conhece) escreveu exatamente o que ela diria, caso fosse questionada sobre "a mulher misteriosa".



"Numa mesa de bar com conversa animada ela se limita a sorrir. Numa festa importante ela se limita a aparecer por minutos e desaparecer em segundos. Em um show ela jamais canta as letras, rebola, comemora, fica suada. Aliás, quem é que já encontrou ela em algum show? Ou em algum lugar? Mas era ela, não era? (...)".



Ela, bem diferente das "mulheres misteriosas", não é limitada e sabe se divertir. Em alguns bares, quando ela chega, cumprimenta o gerente e os garçons, que geralmente perguntam por onde ela andava, caso não frequente o lugar há muito tempo. Se uma festa a agrada, ela vai feliz e, provavelmente, é amiga dos DJ's (que saberão escolher, assim que ela aparecer, o que ela gosta de ouvir). Então ela dança, pula, canta, participa de coreografias na pista e fica até o último minuto que lhe convém (podendo até voltar de uma noitada às seis e meia da manhã, de carona num jipe aberto, com o cabelo solto, seguida por uma moto). Sim... ela não tem frescuras. Não dá a mínima para marcas de roupas, de carros, adora andar de moto e não tem medo da chuva, do vento ou do suor, pois não precisa da garantia da chapinha no cabelo pra se sentir mais bonita. Ela sabe muito bem a hora certa de ir pra casa, mas confessa que, ultimamente, passar a tarde na casa de bons amigos ou ficar no seu canto de vez em quando, tem parecido muito mais interessante do que sair com qualquer um pra qualquer lugar - pois é... ela sabe ser uma ótima companhia pra si mesma.



"E eu, como estava dizendo, sempre quis ser dessas mulheres imperfuráveis, inatingíveis, inaudíveis e incompreensíveis. Mas nunca consegui. Quando vou ver, já contei minha vida pra primeira pessoa que me deu um pouco de atenção. Já to rindo alto no restaurante porque não me controlei e fiquei feliz demais. Já escrevi um texto sobre o fulaninho da terça passada e publiquei numa revista. E o fulaninho ta morrendo de medo porque escrevi que gosto dele. E se alguém perguntar, vou dizer mesmo que goste dele. E se ele não gostar de mim, minha tristeza não será segredo para ninguém.(...) E quando vou ver, lá se foi a mulher misteriosa que eu gostaria tanto de ser. Porque eu jamais poderia ser uma."



Ela pode colocar uma mochila nas costas e viajar sozinha, caso queira... com certeza vai conhecer muita gente no caminho, viver com intensidade os momentos e as oportunidades, nunca esquecerá as pessoas interessantes que conheceu e sabe também que eles jamais esquecerão suas histórias e seu sorriso. Ela sabe rir, sorrir, gargalhar... e não tem medo de parecer ridícula quando faz isso ao ouvir as piadas que gosta, mesmo as mais bobas. Da mesma forma, ela não tem medo de dizer "eu vim aqui só pra te encontrar" ou "eu quero um beijo seu". Maior de idade e vacinada, não se intimida com que os outros possam pensar, caso ela ceda aos apelos do próprio corpo nos primeiros encontros. Ela é simplesmente livre... e acha até engraçado quando sente que um homem que mal a conhece faz questão de "untar uma frigideira que é totalmente anti-aderente". Ela não gruda e, por isso, sabe decidir se vai ou se fica. Sabe também escolher quem é digno de entrar no seu quarto e na sua vida - quem vai e quem fica. E aí, quando alguém fica e ela precisa desabafar, fala as verdades que estão em seu coração, mesmo sabendo que existem pessoas no mundo que nunca tenham sentido o que ela pode sentir. Ela não tem medo de amar e faz isso com maestria - quando sente que assim tem que ser. E, como muitas mulheres que conhece, sonha com o momento em que encontrará o cara que será o pai dos seus filhos. Sim... ela quer ser mãe um dia... mas não agora, pois ainda há muita coisa pra viver.



"As mulheres misteriosas, tão admiradas e desejadas, não passam de mulheres sem a menor graça. Elas não calam por mistério, charme ou discrição. Calam porque simplesmente não há nada mais sábio que elas possam fazer."



E, ao ler o final do texto, ela lembra de uma conversa que teve há poucos dias com dois novos amigos numa mesa de bar. Dois homens solteiros, inteligentes e com histórias de vida bem interessantes pra contar. Homens com alguma maturidade emocional, que não suportam mais as baladas da moda da noite carioca... mas que, de vez em quando, ainda cedem aos truques da tal "mulher misteriosa". Homens que, às vezes, também preferem ficar em casa lendo um bom livro ou vendo um bom filme... porque a "mulher misteriosa" fica bem cansativa, na verdade, quando eles percebem que não há mistério algum nelas.


Ela então lembra também dos lamentos que ouve diariamente das amigas, que dizem ser difícil achar um homem de verdade nessa cidade... e se questiona: "Será que todas as mulheres que conheço, e que são como eu, precisam fingir ser o que não são, só pela possibilidade de, um dia, atrair caras legais que se protegem sob o velho disfarce de "solteirões convictos", até que, simplesmente, as máscaras caiam?"


Pois é... ela tem uma certa preguiça desse "joguinho" e conclui que não deixará de ser quem é, por nada... nem por ninguém.

4 comentários:

Mr. G disse...

Amo!!!! Quero ser como vc quando crescer!!! ;)

don`t change!

marcelo klein disse...

loved it!

Berenice disse...

O futuro pai de seus filhos, com certeza, a essa hora, deve estar se perguntando a mesma coisa...
Um dia, vcs se batem sem jogo e se jogam! aí, vai valer a pena ter seguido em frente!

*Renata Celidonio* disse...

Gu e Celo... tão bom ver vcs por aqui... ;)

Manhê!!! Como eu falei, não tenho pressa alguma, ainda tenho muita coisa pra viver, muita gente pra conhecer... e se vc quiser ser avó logo, vai fazendo campanha pra Nanda decidir isso antes de mim... hahahaha!